Scene4 International Magazine (out de 2006)
Bastidores - Marco Aureh Cantando em Cena (set de 2005)
Jornal Petrópolis em Cena (jul de 2005)
Caderno D (jun de 2004)
Marco Aureh Cantando Sylvia Orthof - Poiésis (mar de 2003)
A
Eterna Força da Música Progressiva (jan de 2001)
Entrevista para a Revista Alemã "Progressive
Newsletter" (mai de 2000)
SCENE4 INTERNATIONAL MAGAZINE
por Andréa Carvalho
(out 2006)
-
Marco, como vc começou no teatro? Pq vc é um ser da música. Conte um pouco sobre esse caminho.
R: Bem, laboratório eu faço desde cedo. Minha mãe, além de uma excelente cantora, tb tinha uma veia teatral fortíssima. Ela criava vários tipos. De repente, estávamos na sala conversando ou jantando e ela surgia encarnando um personagem. Era muito hilário. Mas, atuar mesmo, eu comecei na escola, em Petrópolis. Depois, participei de um grupo de palhaços “Pipócolis”, onde chegamos Nessa época eu aprendi a me conectar com a energia do palco, onde vc tem q expandir sua aura, seu magnetismo, e não há melhor escola p isso do que a dos clowns. Quando participei da primeira montagem teatral, atuei como ator, no papel principal inclusive (risos), e como eu já era músico, fui juntando as duas funções. Daí pra frente, não parei mais de compor trilhas e fazer direções musicais.
-
E os trabalhos com publico infantil? Eu conheço o sobre Sylvia Orthof. Há outras incursões para esse público, vc como compositor especificamente?
R: Se não me engano, essa história começou no “Aroma das Cores” – que era um grupo de atividades recreativas (incluindo música, teatro, culinária e yoga) voltadas para a criança – o público alvo era o infantil. Nos anos 90, participei de diversas montagens teatrais infantis. Dei aulas de musicalização em escolas, onde lancei 3 CDs com a participação dos alunos, nesse período eu compus muita música para crianças. O próprio “Pipócolis”, chegou a gravar um disco de vinil que lançamos em muitos programas infantis da época, como Xuxa, Carequinha e Daniel Azulay.
O CD mais recente foi o “Cantando Sylvia Orthof”, onde reuni uma série de músicas da nossa parceria e também montei o espetáculo musical homônimo que vc assistiu. Gosto muito de trabalhar com crianças.
-
Como vc sente o mercado para o músico brasileiro hoje? É mais fácil viver de música ou de teatro?
R: Sempre foi muito difícil. A música de qualidade não tem muito espaço. As TVs abertas nivelam por baixo e as rádios continuam com o famoso “jabá”. Mas há mais alternativas do que para o teatro. A net, por exemplo, permite troca de arquivos sonoros, mas o teatro, só existe lá no palco, feito na hora, ao vivo, qualquer outra mídia, não representa o teatro, nisso ele fica sendo único, porém, menos abrangente também.
-
Vc trabalhou com Sylvia Orthoff. Como foi esse encontro e a convivência com ela? O que ela deixou em você?
R: Trabalhamos juntos sim, formamos uma bela parceria. O encontro se deu quando estávamos com a Cia teatral “Pessoal Aí”, apresentando “A História de Lenços e Ventos”, do Ilo Krugli, de repente, em cena aberta, um casal bateu palmas de pé. Eram Sylvia e seu marido, Tato, que também foi ilustrador de muitos de seus livros. Após a apresentação ela convidou o nosso grupo para montar um texto seu. Daí para frente, iniciou nossa parceria. Depois criamos o “Teatro do Livro Aberto”, onde atuávamos somente com textos direção de Sylvia. Viajamos bastante. Aprendi muito com ela. Uma criatividade incrível, instigante.
-
E a banda Zé vagão? É especializada em ritmos nordestinos? Conte para nós como funciona o grupo.
R: A banda, inicialmente se chamava “Brasilino”. A música nordestina sempre foi a proposta do grupo. Depois, quando montei o espetáculo musical “Cantando Sylvia Orthof”, o nome mudou em homenagem a um texto de Sylvia, “Zé Vagão da Roda Fina e sua mãe Leopoldina”. Esse musical viajou muito, foi visto por cerca de 50 mil pessoas, principalmente na região sul do país. O “Zé Vagão”, teve um racha recentemente e foi para o baú, assim como o espetáculo, que pretendo remontar logo que tiver tempo.
-
Vc ainda trabalha com música progressiva? O q vc está fazendo nesse campo?
R: A música progressiva é a minha grande paixão. Atualmente, não estou fazendo nenhum projeto especificamente voltado para este gênero, mas trago sempre a influência dele em mim. No musical do João do Vale, por exemplo, criei uma introdução para a música “Carcará”, que tem uma cara bem progressiva, ta no sangue, num tem jeito, rs.
-
Como surgiu o espetáculo “João do Vale, o poeta do povo”? Foi um convite? Era um projeto seu? Como vc encontrou a música e a arte de João do Vale?
R: A bela música desse gênio eu já conhecia, não tanto quanto passei a conhecer após essa direção musical, mas “Carcará”, “Cel Antônio Bento”, “Pisa na Fulo”, “O canto da Ema”, “Na asa do vento”, etc... já estavam na minha memória melódica. O convite partiu de Carlos Augusto Nazareth, que seria o diretor desse espetáculo de Maria Helena Künner (que acabou assumindo a direção com a saída de Carlos Augusto). Ensaiamos exaustivamente por 2 meses e agora estamos colhendo os frutos com o reconhecimento da crítica e do público que tem se emocionado muito com o espetáculo. A vida de João é um ensinamento.
-
Vc teve uma formação musical auto didata. Isso foi uma escolha ou uma circunstância? Digo isso pq qdo se pensa em estudar música muitos pensam que a formação formal em escolas e conservatórios seria mais valorizada. Como foi esse trajeto seu de aprendizado e descoberta da criação musical?
R: Foi uma opção circunstancial, eu diria, rs. Sempre estive rodeado de músicos - tios, sobrinhos, mãe cantora e amigos da família que participavam em saraus na casa da minha avó. Desde cedo, então, fui pesquisando com muita dedicação e paixão também. Depois, comecei a estudar para me aprimorar, fiz vários cursos de teoria e harmonia, mas nunca seguindo o academicismo que tem uma tendência castradora. O João do Vale é um ótimo exemplo, não tocava nenhum instrumento mas tinha a musicalidade interior impressionante, ela brotava de dentro p fora, com muita criatividade. E essa originalidade que os conservatórios (o nome já indica) tentam moldar colocando todos numa forma, e, convenhamos, arte e forma, não combinam.
-
Vc vem de uma família de músicos. Seria inevitável vc seguir essa carreira? Vc se dedicou a outra carreira antes? Como é viver e se criar numa família assim? Fale um pouco sobre a importância disso tb.
R: Acho que não. Eu poderia seguir outra carreira. Nenhuma de minhas irmãs assumiram a música profissionalmente, embora uma das três, cante e toque muito bem. Mas decidi trabalhar com arte desde muito cedo. A melhor coisa de ter vindo de uma família de artistas é que ela me deu muita liberdade para criar e assumir também a arte como profissão, rola um respeito por esse movimento, nunca me senti reprimido nesse sentido, pelo contrário.
-
Além do musical, a q vc está se dedicando agora?
R: Estou montando com o elenco e os músicos desse musical em cartaz, o show “Na Asa do vento”, a banda se chamará, “Coroné Antônio Bento e os Carcarás”, tocaremos só músicas do João do Vale, a estréia será dia 14 de julho no Armazém Digital, em Botafogo.
- Projetos futuros.
R: Investir nessa nova banda e no ano que vem pretendo montar um show e um novo CD enfocando minhas novas composições.
BASTIDORES - JORNAL PETRÓPOLIS EM CENA
Marco Aurêh: “Cantando em Cena”
O músico petropolitano, de formação basicamente autodidata, conta ao “Petrópolis em Cena” um pouco de sua história nesses 26 anos de carreira.
Escolheu a flauta como instrumento de expressão. Teve a curiosidade de criança voltada para a música e sua história familiar como inspirações. Além de promover cursos, oficinas, shows, peças, CDs e poesias; é conhecido como autor de trilhas. Faz música para brincar, dançar, sentir e meditar. O amor à natureza é evidente e a crença em uma energia superior está no ar e permeia o som que ele faz. A música sempre o conduziu e no meio do caminho o levou ao teatro. Duas artes misturadas e viajando num mesmo barco. Tem como trabalho o sentido, o sustento e se tivesse que escolher, diria que a arte também é sua religião.
PC – Música e família: Qual é a relação entre as duas na sua vida?
MA: Têm tudo a ver. Minha mãe era cantora, tinha um tio que era pianista. Saraus aconteciam na minha casa e isso me inspirou muito, assim como os vinis coloridos de historinhas. A minha casa sempre teve uma aura musical muito grande. Eu diria que primeiro a música me pegou, depois eu comecei a pegá-la.
PC – Qual foi o primeiro instrumento que você aprendeu a tocar?
MA: O primeiro foi o violão. Como a minha família é muito ligada à música, o violão estava sempre lá e foi aí que surgiu o meu primeiro contato com um, depois é que fui aprender mesmo até chegar a escolher a flauta como o meu instrumento de expressão, o veículo através do qual musicalmente me comunico melhor. A flauta tem uma coisa de períodos, ela é instável como eu, trabalha com o ar e eu sou de gêmeos, rs.
PC – Há quantos anos você pode dizer que vive somente da sua arte?
MA: Desde 1979. Não considero que tenha trabalhado com outras coisas, fiz alguns biscates, rs, mas em geral posso dizer que sempre vivi de música.
PC – Como você definiria o seu trabalho como músico dentro do teatro? As pessoas o confundem com ator ou cantor?
MA: Existem várias formas de mensagem. Tem o caboclo que fala de um jeito, a criança que fala de outro. Cada um tem um canal de comunicação e a música também se expressa em vertentes diferenciadas. Eu acho que existe, sim, a música tosca, aquela que não passa energia, uma música morta, como um arroz branco, puro, sem gosto. Mas eu sou eclético. Aprecio vários estilos em geral. No teatro, essa vertente de flexibilidade musical ficou muito ampliada em mim... Acho que a boa música precisa passar verdade. Houve uma época em que as pessoas confundiam isso, mas eu não me considero ator, não sou tão despojado corporalmente e emocionalmente para isso. Sou um cara que atua, mas me vejo mais como músico apesar de me sentir extremamente à vontade ao fazer teatro como ator ou compondo trilhas. Alguns músicos gostam de me enxergar como ator e alguns atores, como músico. Sou um músico que atua.
PC – Quando você começou a desenvolver trabalho de música mesclado com interpretação?
MA: Eu resolvi fazer alguns cursos de teatro, trabalhei como ator, mas como já tinha uma ligação com a música, depois de um tempo resolvi ficar só com a parte de trilhas e me apaixonei por esse universo. Quando foi especificamente, não me lembro.
PC – Petrópolis é uma cidade recheada de músicos. Na sua opinião, os profissionais estão buscando trabalhar mais na área do teatro?
MA: Sim, de excelentes músicos. Aqui na cidade alguns destes estão começando a trabalhar nesse meio teatral. Eu dou oficinas de música pra teatro, mas falo para os meus alunos que a escola é o tempo, você tem que experimentar. Não há como se fazer a trilha de um espetáculo em casa, é tudo muito orgânico, você tem que sentir lá, na hora.
PC – Fale um pouco sobre os seus trabalhos feitos no Rio e em São Paulo.
MA: Nos cinco anos em que morei em São Paulo, morei com meus pais e eu era criança. Fiz alguns trabalhos por lá posteriormente. E apesar de não ter morado no Rio, meus trabalhos não saíam de lá, havia um grande fluxo de peças acontecendo e foi justamente na época da Coca-Cola dando apoio. Ao Prêmio Coca-Cola eu concorri no Rio e em São Paulo, antes de ganhar em 1996, já tinha sido indicado nos 2 anos anteriores; em 1994, perdi para o Paulo Jobim, que eu considero a melhor derrota que tive na vida, ele havia acabado de ganhar o Grammy produzindo um disco do pai dele. Competi com artistas maravilhosos como Tim Rescala, Ian Guest, Eduardo Dusek. O teatro infantil teve um nível muito alto nos anos 90. Com teatro adulto trabalhei em boas montagens também, com o grupo Sobrevento de teatro de animação, com José Facury em “Baco, O Teatro”, com Carmem Leonora em “Coração Mamulengo”...
PC – Através do público, o artista conhece um pouco do resultado do seu trabalho. Como você observa a resposta do público diante dos seus shows?
MA: Acho que é importante separar o artista, da arte, a obra, do obreiro. Eu não sou a música, sou o condutor da música. Às vezes as pessoas confundem um pouco isso, talvez por já o conhecerem por outros meios. Pelo fato de simpatizarem com um determinado artista, algumas pessoas estão mais vulneráveis a apreciar a música. Eu fico muito feliz quando a minha obra por si só fala, quando eu recebo uma encomenda do México por um disco meu, alguém que ouviu a minha música no site e gostou, ou quando vou tocar em uma cidade em que as pessoas nunca ouviram falar de mim e eu consigo me comunicar com elas através do meu som. Aí é a obra quem está dizendo, a obra por si só conseguindo tocar a pessoa. Isso é mais do que um Claro Hall lotado. No Circuito do Sesc eu pude notar isso, mostrar meu trabalho para quem não conhece e fazer sucesso, um sucesso não preparado.
PC – Depois de alguns festivais de inverno e do maior fluxo de espetáculos no Teatro Municipal Paulo Gracindo, parece que o petropolitano está tomando gosto pela coisa. O que mais pode ser feito para melhorar a parte cultural na cidade?
MA: A palavra cultura já diz, vem do radical cultivar. Acho que o que falta é manter, regar pra que ela vingue, não morra. As salas do Centro de Cultura Raul de Leoni deveriam ter eventos permanentes, os festivais devem ocorrer todos os anos e aí as pessoas saberão das Mostras, o público vai começar a se preparar pra isso, vai se habituar com isso. É uma codificação, deve ter uma constância, porque quando você mantém um projeto, facilita até na divulgação. A força está no ato de cultivar, manter.
PC – Embora você já esteja estabilizado, o que o move hoje em dia a continuar trabalhando em Petrópolis apesar de desenvolver espetáculos em outras cidades?
MA: Sou geminiano, mas búfalo chinês, eu rumino muito, fico nessa passividade que a cidade pequena exige, mas, por outro lado, há um tédio imenso nessa ausência cultural, nessa pequenez... A música sempre foi a minha maior sobrevivência, mas como você vai sobreviver de teatro em uma cidade que não tem o costume de colocar espetáculos em temporadas?
PC – Hoje em dia, muitos trabalhos sociais são desenvolvidos através das artes. Durante esta longa jornada, o que você pôde perceber da função da música na sociedade?
MA: Eu acho que tem tudo a ver. Eu digo que a música é a melhor oração que existe, ela é uma expressão muito forte. É a arte mais tocante e é invisível. Prova que as magias estão em todo lugar e momento, por isso ela serve de instrumento de transformação geral mesmo. No “Cantando Sylvia Orthof”, por exemplo, nós colocamos esta reflexão: o bicho-homem está acabando com a natureza, o que a gente pode fazer pra mudar isso? E as crianças começam ali a dar idéias. Então, a música é realmente uma grande bandeira.
PC –Você gostaria de deixar algum recado para os leitores do “Petrópolis em Cena” que pensam em investir na carreira artística?
MA: O que eu tenho a dizer é que quem está a fim, deve mergulhar fundo, bem fundo mesmo, que, inevitavelmente, lá na frente irá colher os frutos. Vale a pena regar essa plantinha chamada arte.
PC – Como você analisa hoje a resposta do público ao seu último trabalho, “Cantando Sylvia Orthof”?
MA: Estamos desde 2003 em cartaz e eu costumo dizer que ele foi construído em cena: começou com um quarteto bem simples, depois passou para um quinteto e, agora, além disso, temos um manipulador de bonecos e o fio dramático aumentou. É um espetáculo que foi crescendo no palco e acho que isso dá uma organicidade muito boa. O CD desse projeto também segue o mesmo caminho. Ele foi feito diretamente para a criança, mas agrada a todos e embora a distribuição sempre seja um processo difícil, recebo muitas encomendas pela internet. Terminamos a temporada no Rio e estamos embarcando dia 8 para uma outra no Sul.
CONFIRA ESSA ENTREVISTA NA NET http://www.petropolisemcena.com.br/entrevistas/set_05/aureh_01.htm
CADERNO D
por Monica Winter* (jun 2004)
O Caderno D entrevista hoje o músico e compositor petropolitano Marco Aureh, atual Gerente do Centro de Cultura Raul de Leoni. Em seus mais de 25 anos de carreira, Aureh nos conta um pouco de sua trajetória como artista e de seus projetos a frente do Centro Cultural.
*CD: É comum dizer que o músico manifesta sua paixão ainda na infância. Qual a sua mais remota lembrança em relação a música?
MA: São muitas. Na minha casa aconteciam muitos saraus com vários músicos tocando diversos instrumentos e estilos musicais diferentes. Minha mãe era cantora, minha tia cantava muito bem, meu tio foi um grande instrumentista e compositor que teve suas composições gravadas por importantes cantores da época. Também me lembro muito dos discos infantis em vinil, amarelos, vermelhos, azuis. Todos apresentavam belas histórias sempre com muita música.
*CD: Quais as principais influências musicais que você absorveu durante a carreira de músico e compositor?
MA: Ouvia muito Beatles que minha irmã mais velha adorava. Mais tarde comecei a curtir os Secos & Molhados, sempre com muita flauta e teatralidade; ouvi muito Led Zeppelin e Deep Purple, depois, vieram os grupos progressivos Focus, Jethro Tull, Pink Floyd, O Terço, etc; dos eruditos, cito Bach, Vivaldi, Handel e Mozart.
*CD: Você tem alguns CDs gravados e muito do seu trabalho é inclusive conhecido em países da Europa e na Nova Zelândia. Quais as principais dificuldades encontradas para se divulgar um trabalho em um selo pequeno e independente?
MA: A maior dificuldade sempre fica por conta da distribuição dos discos. No caso do gênero progressivo, existem caminhos alternativos que já são conhecidos pelas tribos amantes do estilo, isso facilita, somado ao intercâmbio virtual, mas ainda é uma tarefa árdua. Lá fora, os discos foram muito bem recebidos, no Brasil também não tenho o que reclamar. O CD “Palma, 12 Ciclos” foi muito bem votado pelo site www.rockprogressivo.com.br e eu acabei sendo eleito o melhor músico progressivo do ano passado, o que muito me orgulha pois sei da qualidade dos instrumentistas que fazem este tipo de música.
*CD: Além de gravar alguns CDs, você também ganhou prêmios com trilhas sonoras para o teatro. Como foi viver esta experiência?
MA: Muito bom. Eu amo o teatro e a música. Compor nessa área de trilhas sonoras para espetáculos teatrais é unir essas duas artes dinâmicas. O teatro me trouxe uma visão bem diferente da dimensão do palco. Há sempre um cuidado maior com a iluminação, o figurino, o cenário, enfim, o espaço cênico é explorado por vários ângulos, coisa que no meio musical costuma passar despercebido. Ganhar prêmio é sempre um reconhecimento que levanta a auto-estima.
*CD: O reconhecimento de um artista pode vir através da aceitação do público, de uma carreira estável e também da atuação frente a um organismo que tem como objetivo único a cultura. Polêmicas à parte, Gilberto Gil é um exemplo disso. As atividades do músico Marco Aureh e do administrador do Centro de Cultura estão dissociadas, ou ainda dá tempo para um show , estúdios e novos projetos para a carreira musical?
MA: Quando veio o convite de assumir este cargo, o presidente da Fundação Cultural, Gilson Queiroz, me deu garantias de que minha carreira seria tocada paralelamente e é o que está acontecendo. O Centro de Cultura é uma casa de artes e estou levando o meu lado artista para lá. Não quero separar uma coisa da outra, até mesmo porque são complementares.
*CD: Todos sabem que Petrópolis é uma cidade de muitas tradições culturais, porém nem sempre houve por parte do poder público a devida atenção a este aspecto. Como você a viabilidade dos projetos que você espera realizar nas salas do Raul de Leoni? MA: Com certeza, a vocação e a história cultural dessa cidade é incomparável, o petropolitano deveria se ater à essa realidade comparecendo mais aos eventos, que são muitos. Até o presente momento, as minhas reivindicações no Centro de Cultura têm sido muito bem acolhidas, vejamos até onde irá essa disponibilidade.
*CD: Quais são suas reais expectativas em relação ao cargo que está ocupando e o que o público de Petrópolis pode esperar em relação as atividades do Centro de Cultura?
MA: Espero chegar ao final do ano de cabeça erguida por ter cumprido meu papel de forma digna. E isto significa promover as condições fundamentais para a dinamização do espaço. O publico só precisa ir até o Centro de Cultura e usufruir de um universo artístico bastante amplo. Devo dizer que poucas cidades do Brasil possuem um complexo cultural como o nosso, com cinema, teatro, biblioteca, galerias de artes plásticas e salas de curso.
* Mônica Winter é jornalista
A
ETERNA FORÇA DA MÚSICA PROGRESSIVA
por Helio Maia
(jan - 2001)
Aurêh
sempre esteve ligado ao movimento progressivo. Foi o criador,
apresentador e co-produtor do programa Tribuna Progressiva na
rádio Tribuna FM durante 4 anos consecutivos. Fundou
a banda Lummen com quem lançou o CD “Ao Vivo no
Rio Jazz Club” em 1999, pelo selo Som Interior. Tem participado
como flautista convidado em vários discos de artistas
do gênero como Anno Luz, Tempus Fugit, André Mello
e Anima Dominus . Confira maiores detalhes nesta entrevista
exclusiva para este site.
1- Como você vê o atual cenário da
música progressiva?
Vai bem. Não tão bem quanto merecia e quanto a
gente gostaria, mas felizmente houve um crescimento do movimento
na década de 90 em todo o mundo, sobretudo no Brasil.
2 - Mas as dificuldades continuam.
Embora o progressivo continue sobrevivendo - e isso se deve
ao fato dele ser arte e não um modismo passageiro - não
podemos deixar de reconhecer que o estilo sofre um imenso contratempo
nos dias atuais. Numa sociedade capitalista-materialista onde
“Time is money” é o lema, qualquer tipo de
arte se sente como um estranho no ninho. Tudo virou instantâneo,
fax, e-mail, celulares, bips, computadores, etc... a música
que precisa de um tempo para ser elaborada, tempo para ser gravada
e tempo para ser apreciada, enfrenta sérias dificuldades.
É um absurdo a inspiração ficar limitada
à 3 minutos, passando disso, as rádios já
não tocam, sem contar o “jaba” cobrado pelas
principais emissoras que atinge valores altíssimos. Ou
seja, a qualidade da música é o que menos vale.
O progressivo não interessa ao sistema ganancioso, ele
prefere investir numa “música” barata, pobre
e descartável; o pior é ver alguns jornalistas
que criticam o gênero caindo nessa jogada que é
uma armação que envolve outros interesses. Ainda
bem que o movimento sempre buscou veículos alternativos
e o público específico sabe onde encontrar a música
que lhe agrada. Os caminhos estão ficando cada vez mais
segmentados com as TVs à cabo e a Internet, isso será muito bom para o progressivo.
3 - Fale sobre as novas bandas progressivas.
Tem surgido muitos grupos mas são poucos os que apresentam
originalidade - aquela identidade que faz com que a geente reconheça
imediatamente a assinatura musical. Algumas bandas da nova geração
se preocupam mais com os cichês dito progressivos do que
com a música propriamente dita. Esse pré-conceito
soa falso, é muito racional. As grandes bandas prog no
auge do movimento não se preocupavam com essa coisa de
ter uma receita fechada, a música era mais importante,
ela é quem ditava as regras, fosse uma simples balada
de 2 minutos ou uma imensa suíte conceitual. Foi essa
liberdade que gerou as grandes obras, foi essa liberdade que
proporcionou o surgimento de bandas completamente distintas
entre si. No Brasil, tem surgido grupos bastante criativos.
Nunca o progressivo foi tão forte neste país,
no entanto, há uma escassez de eventos relacionados ao
gênero. O ideal seria que as bandas progressivas (principalmente
as brasileiras) tivessem uma agenda cheia e não pequenos
shows de ocasião.
4 - Qual a sua opinião a respeito da polêmica em
torno dos termos Rock Progressivo, Música Progressiva,
Arte Rock, Rock Sinfônico, etc...?
São tantos títulos, mas acho normal que isso ocorra
com um gênero tão versátil como o progressivo.
Embora haja muita polêmica em torno desse assunto, e o
termo Rock Progressivo seja o mais utilizado, eu creio que o
título Música Progressiva seja mais abrangente.
A palavra “Música” representa um universo
infinitamente maior do que a palavra “Rock” , que
por sua vez, já vem associada a uma série de conotações,
algumas positivas, outras, nem tanto. É difícil
conceber um rock sem a presença da guitarra, poderíamos
citar vários grupos prog em que este instrumento foi
secundário. É importante que novos ouvintes que
possam vir a se identificar com o movimento, não se fechem
baseados em rótulos. Mais importante que as nomenclaturas,
é que as características musicais que envolvem
o gênero prossigam com inspiração e criatividade.
5
- Nos últimos tempos houve renovação de
público progressivo ou os fãs continuam sendo
somente velhos dinossauros ?
O público progressivo é muito bom. O suficiente
para lotar o Metropolitan em shows de Jethro, Yes, ELP, Marillion,
Annie Haslan. O Pendragon no João Caetano juntamente
com o Tempus Fugit e o Apocalypse, tiveram uma boa audiência,
assim como o Power Flower no Teatro da Galeria. Isso, sem levarmos
em consideração que a faixa etária “principal”
do amante de progressivo esteja em torno dos 30 aos 50 anos,
uma idade em que não se tem mais aquele “pique”,
aquela vontade de ir aos shows com o mesmo entusiasmo de antes.
Mas é um público fiel que está sempre antenado
aos novos lançamentos, sempre comprando discos. Acredito
que na medida em que houver uma credibilidade maior nas produções,
esse público também sairá de casa. Havendo
investimento, haverá retorno.
6 - Então não houve renovação
?
É natural que haja uma identificação maior
naquelas pessoas que vivenciaram o surgimento do gênero
progressivo, mas o caminho é conseguir renovar. Fazer
com que os mais jovens despertem para essa música. É
só uma questão de divulgação, que
muitas vezes é feita no corpo à corpo (aquele
amigo que apresenta um disco que a gente nunca ouviu). Felizmente
esse estilo musical sempre descobre caminhos alternativos e
pela insistência, até a mídia estabelecida
acaba se rendendo (em algumas ocasiões). As bandas de
New Prog (Marillion, Pendragon, IQ, etc.) e os velhos medalhões
(Floyd, Yes, Jethro, ELP, etc.) conseguem atingir um público
jovem. O Lummen chegou a ter dois músicos que não haviam completado
20 anos, o tecladista Daniel Marcolino (17 anos) e o baixista
Fred Mendonça (19 anos); o tecladista do Power Flower
também é um exemplo de renovação.
7- Qual estilo progressivo mais lhe aggrada, sinfônico,
folk, clássico ...?
A princípio me agrada a música inspirada. A música
que transmita alguma mensagem ou me desperte alguma reação
– a música arte. Pode ser simples ou complexa,
desde que passe verdade e emoção, e este sentimento
talvez seja o principal aliado da música. Mas normalmente
me agrada o progressivo que parte de uma estrutura simples,
sem complicações, onde o melódico exerça
papel importante. O progressivo que se monta em cima da formalidade,
as vezes soa complicado, mental demais, é como uma poesia
parnasiana que tenha forma mas careça de conteúdo.
A complexidade deve estar a serviço da inspiração.
O Floyd foi um grupo que sempre colocou o sentimento na frente
da técnica e deu no que deu: a maior banda de todos os
tempos. Me agrada muito a presença da flauta que é
o instrumento de sopra mais utilizado no gênero. Gosto
muito da fusão de instrumentos acústicos com os
elétricos e da combinação de timbres variados.
Mas no fundo, fica difícil definir o indefinível
e é aí que reside a invisível magia da
música.
8 - Mas há quem diga que música é
matemática.
Ela pode ser representada matemáticamente, mas em suas
infinitas fórmulas, existem mais mistérios do
que sonha a vã filosofia dos calculistas. Até
hoje não conseguiram - e muitos tentaram - analisar a
estrutura de algumas obras. A música criada a partir
de uma forte inspiração, não tem números
que consigam explicar. Ainda bem, pois do contrário,
teríamos 100 “Nonas Sinfonias” , 200 “Boleros
de Ravel” , 300 “A Flauta Mágica” e
para não fugir do assunto, teríamos diversos “Thick
as Breack” , “Close to the Edge” , “Hamburguer
Concerto”, “1974”, e outras pérolas.
Os mercadores , os produtores e a mídia, tentam , em
vão, sistematizar o sucesso, mas a verdadeira obra prima
está além dos valores racionais mercadológicos,
ela é coisa rara. E só o tempo é capaz
de comprovar o valor de uma obra de arte.
9 - Quais os grupos que mais lhe agradam do Brasil e
do exterior ?
Na minha opinião, Marco Antônio Araujo fez a melhor
música progressiva que já surgiu no Brasil. A
consciência progressiva que ele tinha era interna e não
externa. Ele sabia trabalhar as dinâmicas (movimentos
fortes e movimentos suaves) e as texturas rítmicas e
tímbricas de forma bastante criativa. O som dele resultava
original, o pensamento estava voltado para a música e
não para os clichês. O Terço no auge da
carreira fez um excelente trabalho. Destaco também a
fase progressiva dos Mutantes. Os outros grupos prog nacionais
não deixaram uma obra consistente, acredito que as novas
bandas irão construir isso com o tempo. Algumas já
estão caminhando para isso.
Quanto as grandes bandas da história, cito Focus, Jethro,
Camel, The Moody Blues, Floyd, Yes, Genesis, Renaissance, PFM,
Gentle Giant, Gryphon e Triunvirat, e, obviamente, Marco Antônio
Araújo.
10 - Fale-nos sobre seus atuais trabalhos.
Eu continuo bastante envolvido com trilhas sonoras e direção
musical para espetáculos teatrais. Também acabei
de concluir a trilha de um longa metragem, foi a minha primeira
experiência no cinema. Compor para teatro exercita muito
o meu lado de pesquisador e ao mesmo tempo a criatividade também
é exigida. O ato de escrever música por encomenda,
desafia e desperta a inspiração, eu gosto desse
tipo de situação. As trilhas normalmente estão
atreladas à uma temática básica, e nesse
ponto elas se parecem com os álbuns conceituais e com
a música programática. Para fazer este tipo de
trabalho tem que estar com a mente bem aberta, não pode
haver preconceitos musicais. No teatro, a música está
mais em função da cena do que ao contrário.
O que a cena pedir, tem que compor, independente de estilo ou
gosto pessoal.
Tenho feito muitos trabalhos infantis. Já lancei três
CDs nesse gênero: “Sem Borracha”, “A
Voz da Criativa Idade vol.1 e 2”, todos contam com a presença
de várias crianças.
11-
Como foi manter um programa de progressivo durante tanto tempo
?
Foi muito bom. O Tribuna Progressiva ficou 4 anos no ar. A repercussão
era excelente. Recebíamos vários telefonemas e
cartas de participação dos ouvintes. É
lamentável que a rádio - que era a única
do gênero rock no estado - tenha se popularizado, ela
se rendeu ao sistema e virou mais uma no meio de tantas outras.
A Globo FM está indo pelo mesmo caminho. Mas certamente
eu voltarei ao rádio, reativando as minhas raízes,
pois foi criado neste meio. Meu pai foi profissional de rádio
durante mais de 40 anos e minha irmã também é radialista profissional.
12 - E o Lummen ?
O Lummen lançou o seu primeiro CD pelo selo Som Interior. O disco
foi gravado Ao vivo no Rio Jazz Club em Fevereiro de 1997. A
formação mudou e com essa atual que tem Léo
Rugero no violino, bandolim e violão, o baixista italiano
Andrea Spada, e o baterista Paulinho Baketa, nós entraremos
em estúdio em breve para gravarmos o segundo disco. Teremos
algumas participações especiais. Aproveito para
fazer uma propaganda de outros discos, o terceiro disco do Tempus
Fugit no qual participo como convidado e o primeiro disco solo
do tecladista André Mello no qual gravei flauta numa
faixa. Esse intercâmbio é super saudável.
Fortifica o movimento.
13 - O segundo disco do Lummen será conceitual?
Possivelmente não. Eu tenho muito material abordando
assuntos distintos, incluindo alguns temas feitos para trilhas
sonoras. A proposta é fazer uma compilação
desses trabalhos e reunir com material dos outros integrantes
para produzirmos um disco que seja abrangente. Mas ressalto
que a idéia de criar álbuns temáticos me
agrada bastante. O Lummen certamente produzirá nesta linha.
14 - Tem mais algo a dizer sobre o Progressivo?
Só tenho a dizer o que muitos já sabem e alguns
ignoram : que a música progressiva será eterna.
A estrutura progressiva não irá morrer nunca.
Ela é como a música erudita que está aí
há séculos, ou melhor, o RP é música
erudita (erudito: Que tem saber vasto e variado) e sendo assim,
será eterno. Enquanto houver músicos criativos
e ouvintes de bom gosto, enquanto houver necessidade de trilhas
sonoras, vinhetas de impacto e fundos musicais para imagens
viajantes - em geral haverá a boa e velha estrutura progressiva.
Se observarmos com atenção, a TV e o rádio
mantém esse clima “prog” em suas vinhetas,
eles não são loucos de abandonar esse padrão
sonoro que cai como uma luva para a maioria dos programas. No
próximo milênio haverá um grande renascimento
e o rock progressivo estará presente em meio ao resgate
da música- arte.
Entrevista com o multi-instrumentista Marco Aureh, concedida à Sergio Motta para a revista
alemã PROGRESSIVE NEWSLETTER. (mai 2000)
PN - Vamos iniciar por falar do Anno Luz. Tenho visto
os nomes dos músicos Guilherme Orcutt e Paulo Loureiro
como os principais membros do grupo; no entanto eu sei que você
também fez parte dele. Em que fase do grupo você atuou?
MA
- O Anno Luz se formou para gravar aquele álbum (lançado
somente em vinil) eu fui convidado para participar como flautista.
O projeto não teve continuidade. Posteriormente, formei
com o Paulo, um duo de música New Age progressiva. Na
ocasião lançamos uma fita K7 que recebeu o título
do nome do duo: “Palma” (Paulo Loureiro e Marco
Aureh). Fizemos diversas apresentações pelo Brasil
e nos tornamos grandes amigos. O trabalho atual do Paulo, que
é um excelente músico, está mais pop, ele
recém lançou com o grupo “Personagens”,
o primeiro CD duplo independente do Brasil, o disco trás
participações de consagrados nomes da MPB como
Djavan, Moraes Moreira, Ed Motta e outros.
PN - Até o presente momento, o trabalho de Anno
Luz não teve sua edição em CD. Mas comenta-se
a possibilidade de que ele seja editado com algum bônus.
Este bônus seria algum material da época ou atual?
MA
- O Claudio Fonzi do selo “Som Interior”, pretende
realmente lançar o CD com faixa bônus. Ele possui
músicas da época além, de outras gravadas
numa apresentação do PALMA que contou com a presença
do Guilherme Orcutt nos teclados. A hipótese de nos reunirmos
para criar algo de novo também não é impossível.
Eu e Paulo já estamos com essa idéia há muito tempo.
PN - Tenho visto o lançamento do CD ao vivo do LUMMEN.
Visto que o Rio Jazz Club já tenha sido extinto há
algum tempo, por quantos anos este trabalho tem permanecido
inédito?
MA
- O conteúdo deste disco foi retirado de 3 shows que
fizemos em fevereiro de 1997. No ano seguinte a casa fechou.
O CD só foi lançado no ano passado (1999) e ainda
ficaram muitas músicas de fora. Uma versão instrumental
de “Eleonor Rigby” dos Beatles - que na minha opinião
foi a nossa melhor performance - fizemos também uma variação
da música “EL Rey” dos Secos e Molhados,
além de releituras das suítes “Destino Imaginário
e “Relembrando”. É bem provável que
elas entrem como faixas bônus em edições
futuras.
PN - Soube que você é o único membro remanescente
desta formação que gravou este trabalho ao vivo.
Como se encontra o LUMMEN nos tempos atuais?
MA
- O Lummen está tirando umas férias prolongadas,
infelizmente, diga-se de passagem. Mas é bem provável
que a gente se reúna para gravar um disco de estúdio
este ano, temos material de sobra. A atual formação
conta com a presença de Léo Rugero (violino e
violão), Paulinho Baqueta (bateria e percussão)
e o baixista italiano Andrea Spada (ex-integrante do grupo progressivo
italiano EXARULE), o Andrea também toca cítara
indiana.
PN - Devido ser tão requisitado por músicos
de outros grupos, como você faz para encontrar tempo para
executar seus próprios trabalhos?
MA
- É impossível sobreviver somente de música
progressiva no Brasil. Conseguir sobreviver de música
já é uma grande conquista em meio a tantos modismos
descartáveis e tantas outras dificuldades. É importante
tentar conciliar os projetos. A minha maior atividade é
compor trilhas sonoras para teatro - no ano passado inclusive,
teve um espetáculo que realizou várias apresentações
aqui na Alemanha com trilha sonora que eu escrevi. Depois de
17 anos compondo para teatro - tive a oportunidade de registrar
em 99, uma trilha em disco, foi o CD “Coração
Mamulengo”. Faço também, um trabalho de
musicalização infantil e recém editamos
um CD interpretado por crianças de 3 à 8 anos
de idade. O disco que se chama “Sem Borracha” contém
30 canções do folclore brasileiro e algumas composições
minhas. Esses discos, incluindo o do Lummen, poderão
ser adquiridos pela internet e o endereço da minha home
page é www.marcoaureh.com.br
PN - Musicalmente, quais são os seus planos para
este ano?
MA
- Atualmente estou em cartaz no Rio dde Janeiro com o espetáculo
“Lendas do Mundo”, trata-se de várias histórias
de origem Sufi, histórias de ensinamentos que existem
há milênios. Eu, ao lado do ator Mario Mendes,
contamos e cantamos essas fábulas vivendo 40 personagens
- a música pontua todos os temas - o resultado tem sido
muito bom. Projetos não faltam: editar o segundo disco
do Lummen; dar continuidade ao projeto de música infantil;
preparar outro espetáculo de histórias Sufis e
finalizar a gravação de um disco solo de música
instrumental. E, quem sabe vir se apresentar aqui na Alemanha?
Seria um imenso prazer!
MARCO AUREH CANTANDO SYLVIA ORTHOF
por Sylvio Adalberto para o jornal Poiesis (mar - 2003)
Apresentamos abaixo a entrevista com o poeta, músico
e compositor Marco Aureh, que está desde o ano passado
empenhado na divulgação de seu CD “Cantando
Sylvia Orthof”, fundamentado na obra da escritora que
dedicou grande parte de sua vida à criação
de peças teatrais voltadas para o público infantil.
Petropolitano, filho da cantora Maria Alice e sobrinho do compositor
Jair Maia, Aureh tem significativa atuação na
cultura de Petrópolis, tendo participado do conselho
editorial do extinto jornal Culturarte, na década de
90. Agora, além de sua carreira musical, também
passa a integrar o conselho do Poiésis.
Poiésis - A escritora Sylvia Orthof criou um
munndo maravilhoso de fantasia e viveu impregnada dele. Você
como parceiro principal, que vestiu as letras criadas por ela,
com uma música deliciosa, ela que se definia, em suas
próprias palavras, como uma “inventadeira de fantasiosas
doidices”, como é que você vê e situa
a Sylvia no contexto da literatura infantil nacional?
Marco
Aureh - Você definiu bem a Sylvia. Ela começou
a escrever depois de certa idade, aos quarenta e cinco anos,
e realmente criou um mundo de fantasias impressionante. A importância
dela na literatura infantil é ímpar. Trouxe uma
enorme contribuição no que diz respeito à
liberdade, à espontaneidade. Até então
se escrevia para criança de uma forma meio ingênua.
Sylvia chegou quebrando esse padrão e, de uma forma inovadora,
começou utilizando uma linguagem despojada com muita
liberdade e senso de humor. Creio que essa tenha sido a principal
colaboração dela.
Poiésis - Você acredita que o trabalho
da Sylvia tenha divulgação a altura de sua importância?
Marco
Aureh - Acredito que não. Seu talento é reconhecido
pelas instituições literárias através
de mais de cem livros editados, mas a obra ainda não
chegou a atingir a dimensão que merece, realmente por
falta de uma maior divulgação.
Poiésis - Como foi fazer o CD Cantando Sylvia
Orthof?
Marco
Aureh - Esse CD é um trabalho antigo, que está
vindo a público agora. As músicas foram surgindo
na medida em que os espetáculos iam sendo produzidos
e levados à cena; assim, esse disco é o resultado
desses espetáculos. Por isso tem música que foi
feita em 1988. Com exceção da música Saudade,
que foi o último poema que a Sylvia fez, quando já
estava no hospital. Foi a última música que fiz,
em 1997, logo que ela morreu. Fora isso, fui compondo as músicas
à medida que musicava as peças teatrais que eram
dirigidas pela própria Sylvia. Quando se está
trabalhando na produção de um determinado espetáculo
a gente fica impregnado da essência do tema, a gente vive,
almoça, janta e dorme com o tema, assim o resto é
só deixar fluir.
Poiésis - Quais os projetos e planos para divulgar
esse trabalho?
Marco
Aureh - Este ano vamos cair na estrada para divulgar esse trabalho
com o espetáculo intitulado Viagem Musical Brasileira,
que batizamos com a sigla V.M.B. É uma viagem de trem,
aonde vamos parando por várias estações
e cada estação é uma referência a
um ritmo brasileiro. Estação Caruaru (Recife)
toca um frevo, estação Xapuri (região norte)
tocamos um boi-bumbá, e por aí vai. E tem também
o Projeto Escola, que é um trabalho voltado às
crianças. Esse projeto já está em pleno
andamento. Ano passado fizemos algumas escolas, entre setembro/outubro.
A idéia é fazer uma turnê pelo país,
participando de eventos ligados à literatura e à
educação.
Poiésis - Qual tipo de apoio você está
tendo para divulgação desse trabalho?
Marco
Aureh - A produção do disco teve o apoio da Fundação
Cultural Petrópolis e mais as Editoras FTD, Nova Fronteira,
Scipione e Saraiva, com as quais já estamos negociando
para uma segunda edição. Agora, a divulgação
e distribuição são de caráter independente
e o nosso produtor executivo é o Paulo Roberto Lisbôa.
Poiésis - Marco, dá para perceber o efeito que
sua música junto com as letras da Sylvia têm exercido
sobre as platéias para as quais você tem se apresentado?
Marco
Aureh - É uma coisa maravilhosa. Primeiro porque é
um show de verdade, sem a preocupação com a idade
da platéia. É claro que tem brincadeiras, a parte
lúdica. A platéia sempre participa. Eles fazem
a locomotiva, quando o trem está saindo da estação.
Cantam junto e de uma forma geral há uma grande interação.
É um show com muita luz, cenários, figurinos...
esses detalhes ajudam na integração. Eles embarcam
nessa viagem lúdica e nos contagiam com seu entusiasmo.
Em princípio achei que fosse um espetáculo para
a faixa etária de seis anos para cima. Mas me enganei.
Com a experiência fomos colocando crianças menores
e elas participaram com muita intensidade. Está sendo
muito gratificante. Nunca tinha feito um show para crianças
pequenas com todo esse aparato de um espetáculo musical
normal, com a estrutura de um musical. O resultado é excelente.
Poiésis
- Quem mais participa do projeto de divuulgação
da obra de Sylvia Orthof?
Marco
Aureh - O Teatro do Livro Aberto, do Fernando Vianna, que agora
esta remontando O Cavalo Transparente, que ano passado esteve
em cartaz no Rio. Na ocasião a trilha sonora deste espetáculo
foi indicada para o prêmio Maria Clara Machado. Fui um
dos fundadores do Teatro do Livro Aberto. Eu, Sylvia, Marise
Manhães e o Fernando Vianna viajamos pelo Brasil apresentando
espetáculos de Sylvia Orthof. Numa dessas viagens acabei
me casando. No Rio Grande do Sul, num congresso de literatura
conheci uma passofundense e estamos casados há onze anos.
Poiésis - Em que circunstâncias você conheceu a Sylvia Orthof?
Marco
Aureh - Estávamos encenando História de Lenços
e Ventos na Sala Afonso Arinos, em Petrópolis, aí
a Sylvia e o Tato, marido dela, no meio de uma cena aberta,
bateram palmas de pé, assim, bastante empolgados com
o espetáculo. Aí ela veio falar com a gente no
final, convidou o grupo para a montagem de uma peça dela.
O grupo era o Pessoal Aí, e que existe até hoje.
E me orgulho muito de ter sido um de seus fundadores. O espetáculo
era O Cavalo Transparente, a partir daí começamos
a montar os espetáculos da Sylvia. Depois do Cavalo,
foi Ponto de Tecer Poesia, Se As Coisas Fossem Mães,
Zé Vagão da Roda Fina, sem contar uns três
ou quatro que foram musicados e não chegaram a ser encenados.
Ainda tem muita coisa inédita, por isso temos idéia
de fazer outro disco dentro da mesma temática. A família
da Sylvia tem sido muito bacana em relação a esse
projeto. Sobretudo a Claudia Orthof. O retorno afetivo tem sido
extraordinário. Com a primeira tiragem estamos divulgando
o trabalho nas escolas em inúmeras cidades do país,
em congressos de literatura, para a imprensa e uma boa parcela
para a Fundação e as Editoras. Fico muito feliz
de estar lançando este trabalho e agradeço muito
ao Paulo Roberto Lisboa, que foi amigo pessoal da Sylvia e que
acreditou no projeto.
Ouça um especial sobre a carreira de Marco Aurêh na rádio http://www.radiostrangers.beescott.com/marcoaureh/index.htm