ARTIGOS

ESCRITOS POR AUREH

A Flauta no Rock Progressivo

Ian Guest - Liberdade Musical ou Filho da Pauta

Música para crianças

Impressões artísticas ou A ingravável arte dinâmica

Poesia de Cordel em Melodia

Salada Musical - A música comendo solta!

Lembrança das letras mágicas

 

SOBRE AS OBRAS
Mídia - tópicos

 

A FLAUTA NO PROGRESSIVO
O mágico instrumento de sopro
Ensaio

     A flauta, sem dúvida nenhuma, é um dos principais instrumentos da Música Progressiva. Não só pela sua presença constante em diversos grupos, como pelas suas próprias características afinadas ao gênero. Se deixarmos à parte os "tradicionais" e básicos, guitarra, baixo, teclado e bateria, a flauta aparece como o instrumento "erudito" mais importante dentro do cenário progressivo. Desde o tímido sopro de Peter Gabriel, até o vigoroso toque de Ian Anderson, o mágico cilindro de Pan e Krhisna sempre teve atuação marcante na história do rock-arte.
     No auge do jazz, a flauta quase sempre cumpriu um papel de coadjuvante. O moderno sax despontava como a estrela principal. Entretanto, alguns saxofonistas também tocavam flauta. É o caso de um cego norte americano chamado Roland Kirk. Ele foi um flautista inovador. Ao lado de Jeremy Steyg, Roland foi um pioneiro na arte de soprar e murmurar simultaneamente. Esse toque consiste em emitir a voz do flautista, em uníssono ou numa oitava abaixo, juntamente com o som da flauta; o efeito proporciona um resultado sonoro bastante vigoroso e orgânico. Esta técnica atualmente é bastante utilizada. Ian Anderson (JETHRO TULL) admite que Kirk foi a sua maior inspiração - fato assinalado no primeiro álbum do TULL, "This Was", onde Ian gravou um tema de Roland, "Serenade to a Cuocko". A partir desses flautistas revolucionários, a flauta mostrou uma outra face.
     Até então associada à suavidade e a delicadeza, a maioria das pessoas ignoravam a possibilidade agressiva da flauta transversa (tocada de lado, na transversal). Atualmente essa noção mudou bastante. Graças a alguns músicos ousados, o som da flauta pôde se mostrar incisivo e cortante como uma navalha afiada. Com essa performance enérgica, a flauta atua em condições de igualdade em meio a guitarras pesadas, baixos, teclados e baterias. Por outro lado, fica a opção de suavidade e leveza que sempre proporcionou um incrível contraste sonoro no universo do Rock.

VERSATILIDADE

     A flauta é o instrumento mélódico mais antigo da face da terra. Flautas feitas em ossos, chifres, caules ou bambus, remontam os primórdios da civilização. São muitas as possibilidades de confecção - flautas de madeira, de barro, de metal, de marfim, de tubos de plástico, etc. Os resultados sonoros são diversificados. Algumas dessas rudimentares flautas, permitem escalas que chegam a alcançar até 3 oitavas; um instrumento bastante acessível e ao mesmo tempo repleto de identidade. Esta personalidade sonora fascinante, que encanta ovelhas, serpentes, anjos e seres humanos, é uma das razões que torna este instrumento tão mágico. Ele sempre foi associado aos deuses em diversas culturas e mitologias, principalmente na Grécia, com Deus Pan, um Fauno que tem o corpo híbrido, metade cabrito, metade menino com chifres. Este lendário ser, habita os bosques e toca uma flauta feita com diversos bambus unidos paralelamente (flauta de pan na Grécia ou zampoña na América Latina). Na Índia, como o inseparável instrumento de Khrisna.
     A flauta - como se não bastasse o pioneirismo - é o instrumento de sopro mais versátil que existe. Na música folclórica de quase todos os povos, do erudito ao popular, passando por variados estilos musicais, os solos de flauta sempre se encaixam perfeitamente.
     Vejamos alguns gêneros musicais brasileiros onde ela se sente bem à vontade. No baião, frevo, chorinho, samba, bossa-nova, xote, maracatú, afoxé ... e por aí vai. Em termos gerais, seria mais fácil perguntar em qual gênero ela não se enquadra. Na música indiana, indígina, árabe, nos diversos segmentos da música erudita, medieval, renascentista ou barroca, clássica, romântica, contemporânea, enfim, seja em uma balada, valsa, toada ou reggae, e, obviamente, na música progressiva, a flauta proporcionará sempre um auxílio luxuoso incontestável.


NA TRILHA DA MEDITAÇÃO

     A flauta sempre foi encantadora. O conto "O flautista de Hamelin" do poeta inglês Robert Browning descreve o poder de sedução desse instrumento. E foi inspirado nessa magia que alguns dos grandes flautistas conduziram suas obras destinadas ao desenvolvimento e elevação dos estados de consciência. O canto da flauta, soa ao mesmo tempo rústico, místico e cósmico - sua melodia casa perfeitamente com a harmonia das esferas.
     Desde a antiga Grécia, a música era utilizada para equilibrar energéticamente o ser humano. Na Índia, música e saúde se harmonizavam. As melodias renascentistas e barrocas soladas na flauta já criavam um certo estado de relaxamento. Mas foi nos anos 60, que apareceu um movimento que foi batizado de "New Age Music" ou "Musica da Nova Era". Ele viria concretizar e divulgar a música criada para harmonizar mente, corpo e espírito. O "novo" gênero musical - que teve sua expansão mercadológica na década de 80 - surgiria como um bálsamo num mundo repleto de turbulências. Era a música suave como contraponto para o dia-dia estressante das grandes cidades. E o nosso famoso instrumento mais uma vez seria um dos principais protagonistas.
     Nessa trilha da meditação, não poderíamos deixar de citar o grande flautista norte-americano Paul Horn. Ele conduziu como ninguém, o cilindro de furos numa jornada sonora que nos remetia à quietude interior. Solos de flauta suspensos no ar, duetos com o silêncio, com baleias e elementos da natureza - uma rica e criativa atmosfera de "vibrações meditacionais". Certa vez, Paul Horn - que teve uma passagem no jazz - afirmou: "Depois de tocar 3 mil notas, descobri que apenas 3 bastavam". Dentre diversas gravações voltadas para expansão da consciência; destacamos "Paul Horn in India & Kashmir" (1968!!!) , "Iside the Powers of nature", "Peace Álbum", "Inside the Taj Mahal" e as gravações feitas na principal pirâmide do Egito: "Inside the Great Pyramid".
     O flautista inglês Tim Wheater é outro integrante do movimento New Age; destacamos os álbuns "The Encanter" e "Timeless".
     Do norte-americano Larkin, que com a suavidade de sua flauta ,criou excelentes músicas para o espaço interior; destacamos "Ocean" ,"To the Essence of a Candle" e "Concert Journey".
Dentre as várias obras para meditação criadas pelo flautista Georg Deuter, citamos "Aum" , "Haleakala" e "Nirvana Road".
     Por último, mencionaremos o flautista de jazz Herbie Man, que também teve sua incursão na música com características meditativas e espiritualistas, quando gravou no Japão, o álbum "Gagaku & Beyond"; o disco faz um link musical entre Ocidente e Oriente.


OS GRANDES FLAUTISTAS DO ROCK-ARTE


     * O grupo inglês THE MOODY BLUES, considerado por muitos, como sendo a primeira banda prog da história, não poderia deixar de contar com o fascinante timbre da flauta transversa. Ray Thomas abriu o caminho para um furacão de flautistas que viriam depois. Com solos suaves e melódicos, explorando as regiões médio-graves do instrumento, Ray soube muito bem aplicar a flauta nas belíssmas baladas do TMB. Destaco a presença da flauta nos temas "One more time to live" , "Dear Diary" e "The Night".

     * Ian Anderson, do JETHRO TULL, merecia um capítulo à parte, mas vamos ao nosso resumo. Anderson foi, e ainda é, o maior representante da flauta dentro do movimento progressivo. Este instrumento tem presença constante e marcante em toda a obra deste virtuoso músico e compositor escocês. Ian criou um estilo de interpretação que influenciaria uma série de flautistas em todo o planeta. Depois de ter sido um dos principais colaboradores da revolução musical da década de 70 - na década seguinte, o flautista do JETHRO apresentou um novo sopro. Inovou soltando um ar selvagem que somado ao "reverb" (efeito de eco e amplitude sonora) resultava numa sonoridade bastante original, era mais um toque de modernidade. A firmeza na digitação e na projeção sonora, se juntam à um excelente equilíbrio tímbrico na gravação e na mixagem. Nos últimos álbuns do TULL, incluindo os maravilhosos discos solo de Ian, "Divinities: Twelves dance for God" e "The secret language of birds", Anderson tem utilizado - com o talento que lhe é peculiar, rústicas flautas de bambu.
     Destaque para "Bourré", "My God" (versão ao vivo do "Bursting Out") e todas as partes de flauta do álbum "Thick as a Brick".

     * Do grupo holandes FOCUS, o flautista This Van Leer, foi outro que surgiu como um revolucionário. Ele também foi um dos maiores responsáveis pela inserção da flauta no cenário do Rock. Tirou proveito dos recursos da voz em dueto com o sopro, normalmente imprimindo ataques impetuosos na nota com divisões estanques feitas com a língua - movimentos musicais conhecidos como "stacatto". Van Leer também soube tirar proveito, com ótima técnica diga-se de passagem, do lado lírico da flauta transversa e da flauta doce. Destaque para "Hamburguer Concerto (movimento "Medium I e II"), "House of the King" e "Janis".

     * Mauro Pagani, do PFM, é um virtuoso. Como se não fosse suficiente, a destreza na execução do violino, Mauro toca flauta e flautim com muita personalidade. A fluência sonora é ressaltada pela beleza melódica de alguns solos desse instrumentista italiano. Destaco as passagens de flauta "Dove Quando" e as frases progressivas, que se repetem em círculos como mântricas mandalas sonoras (Ufa!), dos temas "Dulcissima Maria / Just loock A way" e "From Under" (a flauta expõe o tema que é repetido por outros instrumentos).

     * Andy Latmer, do CAMEL, é outro versátil. Primoroso guitarrista com ênfase no melódico, Andy coloca bastante sentimento e equilíbrio de intensidade e dinâmica (alternância de sons fortes e fracos) em seus solos de flauta. Explora os graves de veludo com um belo sopro carregado de vibrato. Destaque para "Supertwister", "Air Born" e a melodia simples e linda de "Landscapes".

     * O músico e compositor mineiro Marco Antônio Araujo não tocava flauta mas era um amante deste instrumento. Em sua curta e brilhante passagem pelo mundo (faleceu em 1986, com 36 anos), MAA escreveu a mais consistente obra progressiva brasileira que até então se tem registro - e a maioria das suas belíssimas composições, contém a presença da flauta muito bem tocada por Eduardo Delgado e Paulo Guimarães. Os dois flautistas passeiam com bastante técnica entre os sopros impetuosos e os toques suaves, os agudos cintilantes quase sempre se sobressaem. Destaque para "Lembranças", "Brincadeira" e "Fantasia II".

     * Attila Kollar, do Solaris, desfia sua técnica com solos bem colocados. A precisão na execução permite uma ótima atuação nas regiões graves e agudas do instrumento. Destaque para "M'Ars poética", "Duo" e "If the fog clears away".

     * O cantor, compositor e ator Peter Gabriel, este influente personagem da história do progressivo, que possui a voz mais clonada do gênero - também tocava flauta. É uma pena que a maioria dos seus solos não recebeu uma mixagem adequada, ficando com o volume baixo demais em proporção aos outros instrumentos. Esta condição coadjuvante não é muito apropriada a flauta, já que a sua característica melódico-solista, naturalmente sugere destaque. Confiram os solos tímidos em todas as partes de flauta dos discos "Trespass" e "Nursery Crime". A melhor performance está em "Firth Fifth" e em "Supper's Ready" no final do movimento "Willow farm".

     * O GRYPHON é uma raridade dentro do progressivo. Sua maravilhosa música com raízes medievais não poderia deixar ausente um dos principais representantes desse período: a flauta doce, também conhecida como flauta bloco. Este instrumento de dificíl execução, encontrou em Richard Harvey, um virtuose neste grupo inglês; Brian Gulland e Graeme Taylor, também tocam flauta ocasionalmente. Melodias ágeis e complexas, descortinam imagens que atravessam centenas de anos. Destaque para "Kemp's Jig", "Estampie" e "Ethelion".

     * O GENTLE GIANT é outra banda inglesa que utilizou a flauta doce em seu repertório. Os irmãos Shulman, beberam da fonte medieval e renascentista, acrescentando experimentalismos e elementos do jazz. Destaque para "On reflection" e "Talybont".


Veja outros flautistas na história do progressivo:
OS: Você pode enviar indicações por e-mail

BRASIL
Marcelo Bernardes - A BARCA DO SOL
Marcos Moura - BACAMARTE
Andersen e Sebastião Vianna - SAGRADO
Sergio Rosadas - SECOS E MOLHADOS
Moa - RECORDANDO
Marco Aureh - LUMMEN e PALMA
Sergio Benchimol - SEMENTE
Manito - SOM NOSSO DE CADA DIA
João Carlos Kurk - TERRENO BALDIO
Roberti Meyer e Sergio Dias - QUATERNA REQUIEM
Rita Lee - MUTANTES
Marcel Zimberg - A GOTA SUSPENSA
César das Merces - O TERÇO
Hermeto Pascoal - HERMETO

Eduardo Delgado - MARCO ANTÔNIO ARAUJO
Renato Savassi - CALIX

ITÁLIA
Mario Cirla - ALUSA FALLAX
Ciro Perino - CELESTE
Vittorio de Scalzi - NEW TROLLS
Ezio Vevey - LOCANDA DELLE FATE
Giorgio Giorgi - QUELLA VECHIA LOCANDA
Elio D'Anna - OSANNA
Giancarlo Cutuli - MALIBRAN
Matteo Vitolli e Gilberto Trama - DE DE LIND
Bernardo Donati - MALOMBRA
Davide Spitaleri - METAMORFOSI
Walter Maioli - AKTUALA
Valerio Cherubine - MO.DO
Enzo Matarazzo - NOTTURNO CONCERTANTE
Enrico Casagni - NUOVA ERA
Luciano Tavella - OPUS
Michele Diliberto - PIAZZA DELLE ERBE
Mauro Borgogni - GENFUOCO
Mariano Maio - IL GIROSTRANO
Enrico Barbieri - HOPO
Marco Merilli - I.P. SON GROUP
Sandro Cesaroni - BUON VECHIO CHARLIE
Alfredo Barducci - CAMPO DI MARTE
Ricardo Bortolotti - CAPITOLO SEI
Nino Antonino e Franchini Guerrino - CAPRICORN COLLEGE
Enzo Aitabile - CITTÀ FRONTALE
Gianni Cristiani - CLARION
Alex Chiesa - DALTON
Adriano Begorano - ENEIDE
Angelo Giordano - ERA DI ACQUARIO
Alessandro Serri - ERIS PLUVIA
Marco Cimino - ERRATA CORRIGE
Joy Yates - ESPERANTO
Paolo Lucini - EZRA WINSTON
Marco Bosonetto - THE FELLOWSHIP
Tony - FLEA ON THE HONEY
Martim Thurm - ANALOGY
Frederico Ida - APOTEOSI
Claudio Canali - UN BLIGLIETO PER L'INFERNO
Dino Finochi - BLOCO MENTALE
Matteo Vittoli e Gilberto Trama - DE DE LIND
Fiamma Dello Spirito - JACULA
Carlo Biaghetti - A PIEDI NUDI
Vicenzo Caporaletti - PIERROT LUNARE
Damaso Grassi - RÁCCOMANDATA COM R. DE RITORNO
Roby Grablovitz - ROCKY'S FIGI
Pino Ballarini - IL ROVESCIO DELLA MEDAGLIA
Stevo Saradzio - SAMADHI
Giambattista Bonavera - LA SECONDA GENESI
Leonardo Lagorio - IL SISTEMA
Nicola Samale - STANZA DELLA MUSICA
Elio D'Anna - UNO
Paolo Zanella - VENETIAN POWER
Ana Galliano - ZAUBER
Angelo Avogadri - THE ZINT GROUP
Dario Guidotti - JUMBO
Vincenzo Carolli e Luciano Tavella - KATHARSIS
Alfio Vitanza - LATTE E MIELE
Stefano Fornaroli - LETHE
Flavio Capello - LIVING LIFE
Bernardo Donati - MALOMBRA
Leonardo Schiavone e Alberto Ravanini - MAXOPHONE
Ivo Fossati e Martim Grice - DELIRIUM
Miguel Angel Acost - MOSAIC


ALEMANHA
Fred Mühlböck - NOVALIS
Jochen Petersen - WIND
Thomas Schmitt - PELL MELL
Klaus Mayer - NEUSCHWANSTEIN
Wolfgang Trescher - TOMORROW'S GIFT
Burkhard Rittler - MADSON DYKE
Stephan Kaske - MYTHOS
Frank Wulff - OUGENWEIDE
Herb Geller e Reinhart Firchow - BRAVE
Jenni Schücker - BRÖSELMASCHINE
Mario Schaub - EDEN
Bernd Aus - ELECTRA
Maik Hirshfeldt - EMTIDI
Holger Sann - ANABIS
Karl - Heinz Engellardt - ANDROMEDA
F. Oettinger - BEL AIR
Gabriel Knüppel - ISKANDER
Christoph Huster - ROSSEAU
Michael Hofmann - SAHARA
Dieter Roesberg - SATIN WHALE
Manni Bierbach - SECOND MOVIMENT
Volker Hombach - TANGERINE DREAM
Wolfgang Trescher - TOMORROW'S GIFT
Elmar Wegmann - TROYA
Steve Leitner e Jochen Petersen - WIND
Gilles Michault-Bonnet - WÜRTEMBERG
Rolf Fichter e Peter Elbracht - YATHA SIDHRA
Gabriele Knüppel - ISKANDER
Peter Tassins - (SOLO)
Ralf Hütter - KRAFTWERK
Till Patzer - LIFT II
Peter Barth - HANUMAN

INGLATERRA
Ian MCDonald e Mell Collins - KING CRINSOM
Dave Lawson - GREESLADE
Peter Knight e Nigel Pregum - STEELYE SPAN
Jimmy Hastings - CARAVAN
Terry Oldfield, Jon Field e Sebastian Bell - MIKE OLDFIELD
Andrew Lowcock - ITHACA
Jon Field - JADE WARRIOR
Eddy Hines - THE QUIET WRLD
Mick Fletcher - RAW MATERIAL
Davey Dodds - RED JASPER
Jackie Mc Auley e Ray Elliot - TRADER HORNE
Ann Stwart - TUDOR LODGE
Jeff - V. G. GENERATOR
Tom Harris - WEB
Jimmy Hastings - WISTLER
Nigel Pegrum - GNIDROLOG
Hany Davies - GRACE
Colin Horton Jennings - THE GREATEST SHOW ON EARTH
Mick Turner - HAWKWIND
Eoin Eogan - OZRIC TENTACLES
Rob Young - COMUS
Yoel Schwarcz - CONTINUUN
Olivier Page - EDGE
Joy Yates - ESPERANTO
Steve Clark - FAIRFIELD PARLOUR
Paul Fichman - ABSOLUTE ELSEWHERE
Jill Sward - FUSION ORCHESTRA
Paulè Van-Winjngaarden - BLYNDSYDE
Tony Alliston - BODY
Michael Baistow - JAN DUKES DE GREY
Ian Anderson - JETHRO TULL (vide destaque)
Peter Gabriel - GENESIS (vide destaque)

FRANÇA
Roland Richard - PULSAR
Claude Angel, Richard Raux, Teddy Larsy - MAGMA
Guillaume de La Pilière - VERSAILLES
Maurice Helmlinger - MOVING GELATINE PLATES
Crhistian Paboen - NOETRA
Laurent Delene - ORION
Claude M. David - CARPE DIEM
Jean Guerin - ERGO SUM
Franóis Garrel - AME SON
Alain Suzon - ALICE
J. M. brezovar - ANGE
Didier Malherb - GONG
Marc Nion - GRIME
Jean-Luc Hamonet - HAMONET
Alain Casair - HELLEBORE
Marc Donahue - TANGERINE
Guillaume de La Pilière - VERSAILLES

CANADA
Claude Lemay - POLLEN
Daniel Lemay - MORSE CODE
Ian Colvin - TERRACED GARDEN
François Emond - MIRIODOR
Daniel Lemay - MORSE CODE
Alain Bergeron - MANEIGE
Denis Chartrand - ET CETERA
Jean-Pierre Bouchard - CONVENTUM
Serge Nolet - OPUS 5
Ian Colvin - TERRACED GARDEN
Marie Claire Seguin e Guy Richer - SEGUIN
Pierre Daigneault e Serge Fiori - HARMONIUM

USA
Phil Kimbrough - YESDA URFA
Chuck Greenberg - SHADOWFAX
Mike Konopka - PENTWATER
James Miller - MEIRTHRANDIR
Cowternay Hilton-Green - LIFT
Bob Stohl e Kat Epple - EMERALD WEB
Kevin Leonard - NORTH STAR
Frank Wiatt - HAPPY THE MAN
Lyle Holdahl - HARLEQUIN MASS
Don Berkemeyer - HOWEVER

HOLANDA
Ronald Ottenhoff - ALQUIN
Sacha Van Geest e Charley Mariano - SUPERSISTER
Hans de Bruin - LIGHT
Rob Krudman - EKSEPTION
Peter Weekers - FLAIRCK
Gerard Koerts - EARTH AND FIRE
This Van Leer - FOCUS (vide destaque)

SUÉCIA
Anna Högberg - ANGLAGARD
Audus Kjus - WITE WILLOW
Jan Peter Strahle - MR. BROWN
Nina Andersson - TRIBUTE
Janne Severinsson - ISILDURS BANE
Anna Homgren - PÄR LINDH PROJECT
Karin Paulin - FAFNER

ESPANHA
Joseba Erkiaga - ITOIZ
José Maria Agnirrezabala - RIVENDEL
Jep Nuix - GOTIC
Carlos Carcamo - GRANADA
Santi Arisa - FUSIOON
Victor M. Cannizo - ASTURCON
Alberto Fontaneda - CRACK
José Carlos Molina - ÑU

ARGENTINA
Lito Vitale e Liliane Vitale - MIA
Luuis Roco - MAGMA
Cecília Glaria e Laura Fazzio - AGNUS
Claudio Pedra - ETERNIDAD
Cecília Tenconi - BUBU

SUÍÇA
René Fisch - ISLAND
Stefan Frey - ELOITEKON
Peter Wolf - FLAME DREAM
Jöel Vandroogenbroeck - BRAINTCKET

BÉLGICA
Paul Peters - WOMEGA
Mario Guccio - MACHIAVEL
Georges Vanaise - DRAGON
Daniel Starlet - NESSIE

NORUEGA
Asle Nilsen - RUPHUS
Fredric Moystad - HADES

JAPÃO
Kazuhiro Miyatake - MR. SIRIUS / PAGEANT
Manabu Higashigawa - FROMAGE

ROMÊNIA
Gheorghe Torz - PROGRESIU TM
Nicolae Covaciu - PHOENIX

VENEZUELA
Mario Aras - IVOSKI
Guillrtmo Gonzáles - EQUILÍBRIO VITAL

IUGUSLAVIA
Branelambert Zlvkovic - TIME
Djorne Ilijin - TACO

NORUEGA
Sonja Mischor - SOLAR PROJECT
Harald Ly Tomt - KERRS PINK

RUSSIA
Peter Brambat - IN SPE
Peeter Malkov - KASEK

DINAMARCA
Kin Menzer - BURNI'RED IVANHOE
Michael Friss - CULPEPER'S ORCHARD

PERU
Jean Pierre Magnet - TRAFIC SOUND
Octavio Castillo - FRÁGIL

MÉXICO
Luis Diaz Torre Forcén - GALIÉ
Juan Manoel Rosales - MUSICANTE

HUNGRIA
Török Ádám - MINI KONCERT
Attila Kollár - SOLARIS (vide destaque)


IRLANDA
Pól O Braonáin - CLANAD

AUSTRIA
Hubert Schanauer e Herald Zuscharader - EELA CRAIG

URUGUAI
G. Chaibun - CHAIBUN

GRÉCIA
Vangelis Papathanassion - APHRODIT'S CHILD

TCHECOSLOVAQUIA
Jan Kubík - BOHEMIA

FINLÂNDIA
Junnu Aaltonen - TASAVALLAN PRESIDENTI

TURQUIA
Eril Tekeli - ASIA MINOR

*Marco Aureh é flautista e compositor, fundador integrante dos grupos LUMMEN e PALMA de música progressiva; co-produziu e apresentou o programa Tribuna Progressiva na rádio Tribuna FM durante 4 anos; escreveu sobre música nos jornais CULTURARTE e VERTENTE. Atualmente é membro do conselho editorial do jornal POIÉSIS.

www.marcoaureh.com.br
contato@marcoaureh.com.br


Pesquisa Bibliográfica: ENCICLOPÉDIA DO ROCK PROGRESSIVO de Leonardo Nahoum

 

 

LIBERDADE MUSICAL ou FILHO DA PAUTA?
Entrevista comentada do arranjador e compositor Ian Guest, concedida à Marco Aureh para o jornal "Vertente"

     Imagine que "tortura" ter que se submeter àquela velha professora de piano que não permite uma deslizada de dedo. Essa disciplina rígida é "um cemitério de talentos". A opinião é de Ian Guest - Bacharel em composição pela Berklee College, Boston e pela UFRJ e criador do CIGAN (Centro Ian Guest de Aperfeiçoamento Musical). Para ele, o ensino da música tem que estar associado à brincadeira. "Eu me oponho a maior parte de professores de música que só se preocupam com a formação técnica considerada perfeita. Eles não permitem que os alunos toquem de ouvido, nem que adquiram hábitos considerados errados. Eu acho que é justamente o oposto. O ideal é deitar a mão no instrumento impunemente e mandar ver, a partir daí, o certo vai nascer depois", indica Ian que entende que a música, antes de tudo é um código que primeiro a gente aprende vivenciando, depois estuda". "Assim como a língua materna que você nasce e aprende e depois vai estudar aos 6 anos", ensina.
     Segundo o arranjador - para alcançar bons resultados, é preciso estimular na criança o espírito de brincar e no adulto o espírito infantil normalmente adormecido. Só assim é possível encarar com naturalidade o ensino de qualquer arte e não na base da crítica e da auto-cobrança. Em meio a tanta tecnologia musical facilitando a execução em teclados e outras máquinas sonoras, é preciso estimular o aluno a brincar com o seu instrumento. "A leitura de partitura é uma coisa posterior, é para enriquecer a linguagem e não para fazer a linguagem", considera."O ouvido do músico é fundamental, ele não pode aposentá-lo e só ficar lendo e apertando botões", acrescenta.
     Para o revisor dos song-books de Almir Chediack, não faz sentido o músico temer a liberdade de expressão, já que ele não tem tanta responsabilidade como o motorista de ônibus ou o médico cujas vidas dependem deles. "Vale simplesmente fazer, quem não gostar que vá para outra sala", resume Ian. "Por outro lado, se você gostar do que está fazendo, aos poucos os outros vão gostar também", ameniza.
O ensino da música que impõe métodos únicos e rígidos, não enxerga o músico como indivíduo, mas como um instrumentista em potencial. Em vez de ensinar música é preciso ensinar a ser músico . "As vezes uma pessoa que estuda 8 horas por dia pode não ser um bom músico, ele pode até ser um bom instrumentista", analisa. Em prol da não massificação é necessário respeitar a individualidade . A pessoa que aprende somente a trabalhar a técnica e a tocar por leitura e que não cultivar a liberdade de tocar "sujo" vai ser sempre um "filho da pauta", emenda.
     Ian Guest recomenda o método Kodály de musicalização, que se baseia na voz e hoje é usado na maior parte dos países do mundo inteiro, até os 11 anos normalmente a criança não leva a sério nenhum instrumento, mas uma coisa é certa, ela vai cantar muito". Vai aprender a solfejar pela voz e não pelo instrumento - processo secundário que ocorrerá com mais naturalidade.Durante o processo de aprendizado não dever haver preocupação no sentido de escolher o instrumento certo e, se sentir necessidade de uma troca, ela deve ser feita, "Embora seja mais interessante tocar um instrumento bem do que vários mais ou menos", alerta.
     Ian Guest recém lançou em 1995, uma obra ímpar dentro do cenário musical, trata-se de "Arranjo", método prático, em três volumes pela Lumiar. É o primeiro livro do gênero no país e levou 10 anos para ser confeccionado. Os livros são acompanhados de um CD com exemplos práticos de como adaptar uma música para um grupo de instrumentos. Ian lembra a dificuldade que teve para concluir a revisão do song book (dois volumes) de Djavan que também foi lançado pela Lumiar na série song boocks. "O Djavan não sabe teoria mas faz tudo, compõe, arranja, fala o musiques de forma brilhante. Ele não sabe o nome das coisas, no entanto, nunca foi colocado em pauta nada tão complexo quanto às músicas dele", exalta.
     O brasileiríssimo Ian Guest nasceu na Hungria em 23 de maio de 1954 e mora no Brasil desde 1957. Atualmente reside na bucólica Mariana, cidade vizinha de Ouro Preto em Minas Gerais. "Talvez seja coisa genética ou rejeição à rotatividade humana ocorrida no Rio de Janeiro", reflete o compositor. O bucolismo da cidade mineira proporcionou, além da proximidade com a natureza, um encontro com o seu próprio eu: "hoje, às 24 horas do dia e os 30 dias do mês são povoadas de coisas que gosto de fazer, ficando cada vez mais um especialista em mim mesmo", filosofa.
     Para maiores detalhes sobre os cursos, composições e oficinas do professor e arranjador, Ian Guest, viste o site www.mariana.com.br/ianguest

Marco Aureh
Músico, compositor, ator e professor de musicalização
artigo publicado no jornal VERTENTE


MÚSICA PARA CRIANÇAS

     "Um bom menino não faz pipi na cama, um bom menino não faz malcriação"
Esse era um trecho do refrão de uma canção do palhaço Carequinha no final dos anos 60. Será que hoje ela faria o mesmo sucesso?

     O que é música infantil? Será que existe mesmo uma música especialmente feita para as crianças?
Com tantos anos compondo nessa linha, eu tenho minhas dúvidas quanto a essa pré- concepção musical. Acho que a criança gosta de boa música - que tenha letra, melodia, ritmo e harmonia bem entrosados - e neste caso o rótulo é o que menos conta. É claro que alguns elementos temáticos favorecem a identificação: letras que sugiram brincadeiras, simbolismos, fantasias, viagens imaginárias, etc., mas se pensarmos por aí, causaria estranheza ouvir uma criança cantarolar as canções "para adulto" que ela ouve, absorve e curte plenamente. A maioria até rejeita as musiquinhas tatibitate que soam como aquele bilubilu que o adulto chato faz no queixo do neném. Mas vamos abordar a música considerada infantil, feita por artistas que não subestimam a inteligência da criança.
     O Brasil é bom de bola e de música. Mas, ao contrário do futebol, a arte musical, sobretudo a direcionada ao público infantil, não é muito divulgada pelos meios de comunicação tradicionais, mas ela existe e contém a qualidade e o talento do artista brasileiro.
     O Braguinha talvez tenha sido o precursor dessa jornada. Autor das trilhas daquelas histórias contidas nos antigos discos coloridos ele criou belas melodias que hoje estão sendo relançadas em CD. Quando a TV entrou em cena, surgiram alguns programas infantis, mas nem todos traziam uma trilha sonora interessante. Capitão Aza (com Z), Vila Sésamo (acho que era com S), Carequinha, etc. Daniel Azulay também teve seu momento de glória fazendo música infantil na TV.
     Nos anos 70, surgiu no Rio de Janeiro um grupo chamado Bloco da Palhoça. Dele surgiram 2 compositores que fazem trabalhos exclusivos para criança: Bia Bedran e Sidney Matos. A cantora e atriz Bia Bedran se firmou como uma das principais porta-vozes da música feita para crianças no país, sua projeção teve início nos tempos em que apresentava na TV Educativa/RJ, o programa Canta Conto, onde eu tive a oportunidade de me apresentar por 2 vezes. Sidney Matos montou o NEAE , Núcleo Experimental de Arte e Educação onde busca sempre um resgate das músicas folclóricas. Alguns medalhões cariocas escreveram para crianças. Chico fez "Os Saltimbancos", Vinícius de Moraes criou "A Arca de Noé". A bela trilha do "Sítio do Pica-pau Amarelo" também reuniu um monte de feras de todo o país com destaque para Gilberto Gil na música tema. Não podemos deixar de citar o selo "Angels Records" que também é um distribuidor de diversos títulos para crianças, incluindo músicas para bebês.
     São Paulo também tem ótimos representantes e , ao meu ver, é onde surgiu o que se pode chamar de vanguarda da música infantil. O selo Palavra Cantada é um dos principais responsáveis pela expansão do gênero, seu catálogo só apresenta música infantil de muita qualidade. O Palavra Cantada foi criado por Paulo Tatit e Sandra Peres, ex-integrantes do grupo Rumo, que são dois músico-educadores de mão cheia.(ver títulos no box). O paulista Hélio Ziskind é outro papa das canções infantis, o excelente disco "Meu pé meu querido pé" (Palavra Cantada) contém as trilhas que ele compôs para os programas Cocoricó, Glub-Glub e Castelo Rátimbum da TV Cultura-SP, a música "Passarinho: que som é esse" com mais de 30 minutos de duração é um legado de percepção musical onde ele apresenta 28 instrumentos musicais, todos muito bem executados por ótimos instrumentistas. O flautista e saxofonista Derico da banda "Onze e meia" que acompanha Jô Soares, lançou versões instrumentais de cantigas no CD "Onze meses" (Angels Records). A dupla Thelma Chan e Thelmo Cruz fazem um interessante trabalho que além de alguns discos com material lúdico, incluem oficinas que desenvolvem a conscientização do corpo e da voz da criança.
     Em Minas Gerais vou destacar 3 trabalhos: Rubinho do Vale, morador do Vale do Jequitinhonha, o duo "Dois a Dois" (Palavra Cantada), e o violinista e compositor Marcus Vianna. Ao contrário do modernismo paulistano, os mineiros primam pela busca das músicas de raiz, das canções puras, espontâneas e cheias de lirismo. Rubinho já dedicou uma boa parte de sua criativa obra ao público infantil. Marcus Vianna lançou alguns títulos para crianças e bebês no seu selo Sonhos e Sons. Neste momento em que escrevo esse texto, peguei o CD "Dois a Dois" e pedi ao meu filho Yule de 9 anos que colocasse o disco para tocar, ele arregalou o olho e soltou um eba! Não preciso dizer mais nada.
     Lá de cima, do Norte do Brasil temos o Juraíldes da Cruz, pouco conhecido por essas bandas de cá , mas muito talentoso. Ele é autor da bela canção, "Meninos", que gravamos no primeiro CD, "A Voz da Criativa Idade"; projeto de dois discos infantis com a participação de mais de 100 alunos da escola Criativa Idade. Estes registros primam pela espontaneidade dos interpretes na execução despretensiosa das cantigas.
E pelo resto desse país existem muitos outros artistas que se dedicam a criar boas músicas para a infância e juventude mas infelizmente não conseguem o devido reconhecimento. Mas quem estiver de saco cheio de ficar ouvindo as Xuxas, Elianas e Sandys da vida, faça um esforcinho que encontrará boa música para crianças e adultos.

DISCOGRAFIA INFANTIL RECOMENDADA

- PALAVRA CANTADA (TODOS OS TÍTULOS DO SELO) - Destaque para "Canções de brincar", "Canções Curiosas", "Dois a dois" e "Pé , meu querido pé". www.palavracantada.com.br

- BIA BEDRAN - "Dona Árvore", "A caixa de música de Bia", "Coletânea de músicas infantis" . www.biabedran.com.br

- ANGELS RECORDS - "Música dos Anjos", "Acalanto do Mundo", "Caixinha brasileira", "Cantos do Brasil", "Jacaré espaçonave do céu", "O Menino Maluquinho", "Onze meses" (Derico), "Tainá, uma aventura na Amazônia". www.angelsrecords.com.br

- MARCUS VIANNA - "Cantigas de Roda", "Sonhos de bebê 1 e 2 ", "As mais belas canções de ninar 1 e 2". www.sonhosesons.com.br

- MARCO AUREH - "Cantando Sylvia Orthof", "Voz em Cena sem Borracha", A voz da Criativa Idade 1 e 2". www.marcoaureh.com.br

- RUBINHO DO VALE - "Ser Criança", "Embola-bola", "Passarinho, palhaço cantor". www.rubinhodovale.com.br

- THELMA CHAN E THELMO CRUZ - "Divertimentos de corpo e voz", "Pirralhada", "Dos pés à cabeça", "Chero Momaité Brasil (Eu te saúdo Brasil)" www.musicainfantil.com.br


Marco Aureh
Músico, compositor, ator e professor de musicalização
Publicado no jornal "Vertente Cultural" - 1997

 

“IMPRESSÕES” ARTÍSTICAS
ou
AS INGRAVÁVEIS ARTES DINÂMICAS
Ensaio

    

Antigamente era difícil gravar uma música. E antes disso, nem se gravava. Só havia a música feita no momento, quem ouviu, ouviu, quem não ouviu, ouvisse. Imaginem a valorização das apresentações musicais. Assistir à execução ao vivo era a única forma que se tinha de receber os sons e nem se vislumbrava outra possibilidade. Os tempos passaram e muita coisa mudou no setor dessa poderosa e invisível arte. Talvez ela seja a que mais sofreu alterações em sua estrutura, se comparada às outras duas artes dinâmicas: a dança e o teatro.

No caso da dança, no passado ela também precisava da música tocada ao vivo. Havia um incrível casamento dessas duas manifestações artísticas, e também, naquela época, não se imaginava de outra forma – parece até alguns “inseparáveis” matrimônios que se diluem feito brumas, mas isso é outro papo. Bem, a dança, embora hoje a sua imagem possa ser gravada em vídeo, não sofreu tantas alterações em sua estrutura essencial. Não é possível criar malabarismos forjados tecnologicamente como é possível num estúdio de gravação musical. Os aparatos tecnológicos utilizados na dança são apenas adereços complementares. Já um teclado, reproduz uma orquestra inteira. Não se vê o mesmo bailarino dançando três ou quatro personagens diferentes ao mesmo tempo - estou falando de movimentos humanamente impossível para um só corpo - como se pode ouvir na música o mesmo instrumentista executando vários instrumentos simultaneamente – tendo gravado um de cada vez, obviamente. Portanto, nesse sentido, a dança continua sendo puramente dança e, assim como o teatro, ela só existe plenamente quando executada ao vivo. No caso da arte cênica, essa impressão é bem mais sentida. A filmagem de um espetáculo teatral está longe de ser teatro, aliás, normalmente fica uma coisa chata de se ver. Todo ator quando vai se assistir em vídeo sente-se, no mínimo esquisito. Não falo aqui de cinema, pois este emprega outro formato e utiliza a tecnologia na construção de uma linguagem própria. O teatro, das três manifestações artísticas dinâmicas, é a arte do “não registro”. Embora isso seja preocupante no sentido fugaz da situação, é também fascinante. Além da impossibilidade de registro histórico, cada cena do mesmo espetáculo, é um momento que não se repete, é um momento único. Cada fala tem sua entonação, sua melodia e ritmo variáveis; na música, embora também haja variações interpretativas, as notas musicais têm sua natureza exata, se alterarmos o ré, por exemplo, ele pode virar ré sustenido ou ré bemol e daí, muda tudo. E se o teatro só acontece em cena, as artes plásticas são o oposto disso. Elas são artes naturalmente “gravadoras”, já nascem sendo impressas, registradas.

Voltando ao som, me ocorre uma investigação estimulante. Embora o áudio seja o que melhor se reproduz mecanicamente, eu diria que a verdadeira música, no seu sentido mais puro, é a feita no momento presente. Sua energia não se compara a dos sons reproduzidos mecanicamente. Esse “calor humano” pode ser sutilmente percebido em algumas gravações ao vivo. Muitos registros de shows, até com qualidades técnicas precárias (de execução e sonoridade) nos “tocam” mais do que alguns discos frios, minuciosamente bem acabados e “encerados” no estúdio porque estes nos soam mortos, como um arroz sem sal.

Ouso dizer que as artes dinâmicas são rebeldes por natureza, e portanto, "ingraváveis". A música, como já foi dito acima, até consegue ir mais longe do que o teatro e a dança nesse sentido, mas é notório perceber que uma apresentação ao vivo (no palco, na praça ou no sofá da sala) é bem mais emocionante do que o som mecânico de um disco sendo reproduzido nas caixas de som. A música feita no momento presente trás o que podemos chamar de “princípio vital”. Essa organicidade está longe de existir naquele teclado com bateria eletrônica sendo “tocado” numa churrascaria. Esse trôpego ruído chega a agredir os chakras da vítima que se encontra em seu incômodo espectro sonoro.

Sabemos que a abordagem do que é ou não contagiante e energético na categoria do som emitido é algo extremamente subjetivo. Isso ocorre na medida em que a relatividade dos dois pólos envolvidos – quem toca e quem escuta – deva ser considerada. Contudo, é fato que a arte, desde sua origem, apresenta características naturalmente abstratas e místicas. E por que não, mágicas? Reflitamos.

Gravando no quarto de empregada

Bem, quando eu comecei o artigo, a minha intenção era falar sobre as facilidades de gravações sonoras existentes hoje em dia. Contudo, uma força estranha (risos) me levou a essa abordagem “energética” contida por trás da arte que se vê e se ouve. Mas para não dizer que não falei das flores (de plástico), vamos ao que consideramos como registro musical.

No princípio havia o som e o som se tornou música. Em seguida veio a representação desse som em forma de escrita e foi criada a partitura. A comunicação musical se ampliou. As idéias sonoras tiveram o seu primeiro registro. Tempos se foram e o homem inventou o gravador. Os conservadores da época o abominaram. Controvérsias à parte, estava inventado o aparelho que revolucionaria para sempre a história dos sons. Mas outra máquina mais mirabolante ainda estava por vir.

Num passado não muito remoto, ter a sua música registrada em disco era uma tarefa dos deuses. Só gravavam os escolhidos pelas empresas fonográficas; as poderosas gravadoras. Somente elas possuíam estúdios, máquinas de fabricar discos de vinil, fitas cassete, etc. Era muito mais difícil ter acesso a esse universo. Hoje as coisas mudaram. Houve muita evolução tecnológica em pouco tempo. Num quartinho de empregada é possível gerar uma ótima gravação usando um bom computador e um pouco de criatividade. Com a evolução da informática e da mídia digital tudo ficou mais fácil. Em termos de prensagem e distribuição também. Qualquer cantor, desde que disponha de uma verba (em torno de seis mil reais) pode gravar (em estúdio melhor que o do quartinho de empregada) e encomendar seus discos. E ainda conta com o democrático apoio da Internet para divulgar seu trabalho – embora a distribuição ainda seja um grande dilema.

Por essas e outras razões, a música tem uma comunicação muito mais abrangente do que qualquer outra arte. Isso é motivo de comemoração? Nem tanto. Ao mesmo tempo, ela também é muito visada pelos gaviões capitalistas que não se cansam de enquadrá-la no mercado como peixes mortos no balcão da feira. E são muitos os artistas que se deixam corromper por esse sistema guloso. Poderemos discutir isso depois.

Abraços sonoros!

Marco Aureh
músico, compositor e diretor musical

 

POESIA DE CORDEL EM MELODIA
Artigo complementar ao artigo de Gerson Valle "Letra de Música é Poesia?", ambos publicados no jornal "Poiésis"

     Minimizar a poesia pelo fato dela estar sendo cantada é uma ignorância típica da ideologia intelectualóide-academicista. Em outras palavras, considerar que letra de música é inferior a poesia, nem sempre condiz com a realidade dos fatos. Os autores dessa proeza, além de pesquisarem as pérolas eruditas citadas pelo Gerson Valle em seu artigo "Letra de Música", e tomarem conhecimento do cancioneiro medieval e renascentista de países como Espanha, Portugal, França e Inglaterra, deveriam também, realizar um passeio pelo Nordeste com a proposta de sentirem de perto a riquíssima poesia de cordel cantada pelos trovadores do sertão. A maioria do que hoje é criado em pequenos livretos, originalmente produzidos para serem pendurados em varais (daí o termo cordel), não recebe melodia, mas quando isso ocorre, os resultados são fantásticos. E a origem dessa rica literatura é musical. Numa época em que poucos habitantes do agreste sabiam ler e escrever, os poemas eram cantarolados ou declamados pelos cantadores.
     Atualmente conhecidos como repentistas, estes artistas mambembes, quando inspirados, cantam de improviso belíssimas trovas. E isto nada mais é do que poesia cantada. Fazem uso, normalmente por espontaneidade intuitiva, de rimas ricas e aliterações simbólicas que deixariam Olavo Bilac e Cruz e Souza respectivamente pasmados. Patativa do Assaré é um grande representante dessa nata, assim como o hoje reconhecido, e um pouco mais rebuscado, Ariano Suassuna; deste grande autor, tive a grata oportunidade de musicar o espetáculo entitulado "Coração Mamulengo", trilha sonora que foi editada em CD com a poesia de Ariano cantada pelos atores da peça.
     Para ilustrar mais ainda o artigo citado, da MPB podemos destacar diversos casos onde a "letra" é também um poema. Alguns músicos instrumentistas formaram famosas parceiras com letristas poetas. Victor Martins letrou (ou seria poetizou?) a música de Ivan Lins; Aldir Blanc a de João Bosco; Fernando Brant a de Milton Nascimento; Ronaldo Bastos a de Beto Guedes; Geraldinho Carneiro a de Egberto Gismonti...e por aí vai. Em muitos destes casos pode ter sido ao contrário: o poema foi musicado como o fez João Ricardo ao musicar Cassiano Ricardo e Manoel Bandeira no primeiro e mais conhecido disco dos Secos & Molhados.
Grande parte da história da música popular brasileira foi escrita (no sentido próprio do termo) com a força da poesia de muitas letras famosas. É claro que as letras das canções populares são mais coloquiais, mas nem por isso, menos poéticas.
     Como afirmou Gerson, a letra de música pode conter poesia ou não, assim como a poesia, se me permitem a metáfora, em alguns casos, não contém "letra" alguma.

Marco Aureh
músico, compositor e diretor musical

 

SALADA MUSICAL - A MÚSICA COMENDO SOLTA!

Publicado na Tribuna de Petrópolis em 24/01/06

 

Petrópolis sempre se destacou no cenário artístico brasileiro. O teatro, a dança, as artes plásticas e a música da cidade de Pedro sempre produziram muitos talentos. Entretanto, afirmo que é deste último segmento que brotam mais pratas da casa. Antes de citar uma enxurrada (pra combinar com a terra) de fatos que compravam essa tese, quero apontar os dois mais recentes. A primorosa conquista do coro Contraponto na Alemanha, onde venceu o torneio considerado a “copa do mundo do canto coral” e o recém ingresso do vocalista petropolitano Gustavo Monsanto na Banda Francesa “Adágio”, isso depois que os franceses ouviram centenas de outros pretendentes ao cargo de vocal líder dessa conceituada banda de prog metal.

Em contraponto ao berço explêndido, a desunião da classe musical petropolitana sempre foi proporcional à sua fertilidade. Visando mudar esse quadro, resolveu-se fundar o MAPE (Músicos Associados de Petrópolis). E paralelo às reuniões burocráticas, que têm se realizado periodicamente no Centro de Cultura Raul de Leoni, foi criado o “Salada Musical – a música comendo solta”; um evento que conta com a apresentação de vários músicos e bandas. A cada segunda-feira, uma atração diferente tem subido no palco do restaurante Fuka´s.

O SALADA MUSICAL – teve início no dia 9 de janeiro de 2006. Ele têm promovido um saudável intercâmbio entre os integrantes da classe musical local. Os encontros, a princípio, estão sendo um motivo para trocar idéias musicais, criar sons e intercambiar experiências artísticas em geral. Porém, paralelo ao estimulo da arte de Orfeu, também estão sendo realizadas reuniões periódicas com intuito da associação que se cria. A conscientização política e social também serão importantes itens que irão fortalecer o movimento. Será estimulada a discussão sobre o mercado musical – municipal, estadual, brasileiro e internacional.

Toda e qualquer decisão tem sido efetivada em assembléias democráticas, com organização de um diretório previamente escolhido em plenária pelos associados.

Será criado um estatuto e as suas regras serão respeitadas.

O cachê referente às apresentações dos músicos participantes nos eventos produzidos pelo MAPE, assim como os eventuais patrocínios, terão sempre um percentual destinado à entidade que se cria; o que for arrecadado será empregado na melhoria da classe. Poderemos destacar algumas vantagens que se vislumbra dessa união:

- aluguel ou compra de imóvel para ensaios, reuniões, encontros, aulas, etc;

- compra de equipamentos e acessórios musicais;

- investimento e produção em projetos culturais;

- intercâmbio de instrumentos musicais;

- criação de empresa produtora de eventos;

- espaço que viabilize a divulgação e produção de eventos;

O tempo e o desenrolar dos encontros determinarão os caminhos e a evolução do Movimento a partir do que nele se investir em termos de dedicação, participação e criatividade.

A idéia inicial foi reunir músicos de todos os estilos e tendências musicais para conversar, beber, comer, discutir, e, obviamente, tocar. Uma saudável troca de idéias e experiências musicais diversas. Mas o MAPE não é só isso, se o associado quiser e acreditar, ele pode subir muitas oitavas nessa escala... a primeira nota está lançada, ou melhor, tocada. O Movimento começa sem divisas, sem patrimônio físico, mas ele tem um grande trunfo, o talento incontestável dos seus associados, e esse talento, se bem direcionado, gera divisas, constrói patrimônios. Vamos unir forças para carregar e tocar o piano.

Há muitos anos atrás, Petrópolis já teve uma iniciativa “parecida” com o Mape, era o Musi Club que chegou a mobilizar grandes expoentes da bossa nova, dentre eles, Tom Jobim e Vinícius de Moraes.

Está na hora de darmos polimento nas pratas sonoras da casa, valorizando a memória das que já ser foram e incentivando as que estão na área e as que estarão por vir.

De Rafael Rabelo ao maestro Guerra Peixe, passando por Ernani Aguiar, Victor Santos, Luvercy Fiorini, Sivinho, Jair Maia, Fernando Mora, Volney Aguiar, Ricardo Magno, José Santa Rosa, Magdalena Tagliaferro, Marcelo Coutinho, Felipe Shimidt, Lelei, Carlos Watkins, Paulo Loureiro, Rodrigo Dávilla, Paulo Sá, Jorge Amorim, Moreno, Perci, Paula Tribuzzi, Zé Ricardo Taboada, Marcos Tardelli, Ricardo Mac Cord; as bandas Black Zé, Palma, Alma Reggae, Renegados, Lummen, Tocaia, Zoue, Anno Luz, Rixco, B5; Coral dos Canarinhos, Meninas Cantoras, Princesas Cantoras e diversos outros coros, os regentes Marco Aurélio Xavier, Marco Aurelio Lizt, Julio Siqueira, Gilberto Bittencourt, Carlos Fescher, e tantos e tantos outros expoentes musicais que não caberiam aqui nesta folha...

O sucesso (que já está acontecendo) do nosso Movimento irá depender única e exclusivamente dos músicos associados, alguns podem estar perguntando: o que fazer para se associar? É simples, basta ser músico, cantor, compositor ou instrumentista e estar disposto a doar um pouco da sua vocação, ou habilidade, em prol de uma associação.

Nobres companheiros, façamos desse Movimento, uma brincadeira organizada, afinal, o verbo “tocar” na maioria das línguas significa também “brincar”: “Brinquemos já”!

A boa música conta com todos vocês.

 

Marco Aureh
Músico, compositor e sócio fundador do
MAPE
Músicos Associados de Petrópolis

16/02/06

LEMBRANÇA DAS LETRAS MÁGICAS

Lembro-me vagamente, quando eu comecei a balbuciar as primeiras palavras... quando eu comecei a engatinhar... quando eu comecei a andar.

Lembro-me perfeitamente, quando eu comecei a ler.

O som de cada letra. A junção de uma com a outra formando sílabas intermináveis. B com A faz ba, L com A faz la; tudo junto é igual a “bala”. Que maravilha! Eureka! Era uma descoberta fascinante! Decifrar os rótulos das garrafas, das latas de leite, latas de salsicha, latas de óleo, caixas de sapato, potes de manteiga... Ler as placas nas ruas, as palavras nas revistas, as frases nos livros; era como se de repente, todos os segredos fossem revelados. Saber combinar os desenhos daqueles símbolos encantados - ao alcance dos meus olhos e da minha mente alerta – tornava-me um ser importantíssimo. A minha auto-estima cresceu muito a partir daquela revelação.

Ler estava diretamente associado a ouvir histórias, mas antes alguém as lia para mim, agora eu mesmo poderia me dar esse prazer.

Estar aprendendo a ler não era simplesmente mais uma brincadeira, era “a brincadeira”. A melhor do momento. E ao mesmo tempo em que eu desvendava aqueles misteriosos signos de forma lúdica, sabia que estava dando um passo rumo ao universo adulto, que na época, por ingenuidade, era o que eu mais queria. Nas ocasiões em que me perguntavam se já sabia ler, eu respondia um “sei” com ar de nobreza.

Hoje eu recapitulo essas cenas e percebo o quanto elas eram verdadeiras e coerentes. Porque ler é mágico. É nobre. É poderoso. Pois quem lê tem a capacidade de conhecer, viajar, entender, descobrir o mundo através de pouco mais de duas dezenas de pequeninos seres fabulosos: as letras. Não podemos esquecer da pontuação e dos sinais, igualmente minúsculos e não menos influentes.

A leitura proporciona uma gama infinita de possibilidades. Navegar sem entrar na água. Correr sem mexer com os pés. Lutar sem fazer esforço. Voar sem ter asas. Chorar, com ou sem lágrimas. Sorrir, mostrando ou não, os dentes. Pular de uma dimensão à outra num passe de mágica.

Ah, como é bom poder ler! E como é maravilhoso gostar de ler!

É claro que a riqueza da aventura, a qualidade desse passeio imaginário, depende do passageiro. E o passageiro é o leitor, que quando se permite, vive momentos inesquecíveis. É assim, como na vida, se não houver entrega, criatividade e imaginação, ela se torna enfadonha, chata, sem sal.

Hoje me recordo, com felicidade, do tempo em que comecei a embarcar nessa fantástica nave chamada leitura. E essa lembrança muito me ajuda, porque a vivência do meu eu viajante, atualmente ensina o meu eu piloto; esse novo ser que outrora foi conduzido, e que agora anseia em conduzir. Lendo ou escrevendo, como guia ou passageiro, leitor ou escritor; não importa – são dois lados da mesma moeda, ou melhor, setores da mesma embarcação.

Ah, como é bom poder ler e escrever, e como é maravilhoso amar profundamente essas duas “varinhas de condão”!!

 

Marco Aureh

Músico, compositor, ator e professor de musicalização

Publicado no jornal “Poiésis”